José Quitério assinou a crítica gastronómica do Expresso durante 38 anos e marcou um estilo. Um problema de visão obriga-o a deixar de escrever.
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FOTO TIAGO MIRANDA
José Quitério estreou-se como cronista gastronómico no Expresso em 1976 e nestes quase 40 anos de colaboração semanal, a que agora põe fim por questões de saúde, impôs um estilo, mostrou uma isenção e revelou uma capacidade crítica que fizeram dele uma figura de referência na gastronomia portuguesa. Defensor de uma ética muito própria, que passava pela cultura do anonimato, conhece diversas gastronomias, mas apenas se pronuncia sobre as que domina.
Numa grande entrevista em tom de despedida para a nova revista do Expresso - a E, que sai já este sábado - José Quitério faz o balanço de quatro décadas ao serviço da crítica gastronómica: Sushi não é cozinha, o "chop suey" é uma invenção dos norte-americanos e o foie gras é uma "maravilha civilizacional". Sustenta que o empratamento da nouvelle cuisine foi buscar inspiração à cozinha japonesa e confessa que não sabe distinguir se o vinho estagiou em cascos de carvalho francês ou noutro qualquer. Frontal e provocador, explica porque dizia que teria gostado de ver "os tanques soviéticos a entrarem no Marquês de Pombal".
José Quitério será substítuido por Fortunato da Câmara, um crítico gastronómico com provas dadas. Já colaborou com o Público, Sol e Renascença, e é desde 2013 um dos formadores convidados pelo Institut des Hautes Études du Goût e a Universidade de Reims onde leciona uma "masterclass" em crítica gastronómica.
Em 2013 publicou o livro "Os Mistérios do Abade de Priscos e outras histórias curiosas e deliciosas da gastronomia" (Esfera dos Livros), distinguido nos "Gourmand World Cookbooks Awards" como o melhor de Portugal na categoria "Food Literature", e que recebeu da Academia Portuguesa de Gastronomia o prémio "Literatura Gastronómica".
NOTA DE DESPEDIDA AOS LEITORES
Por motivos alheios à vontade das partes, devidos tão-somente à alta traição dos meus olhos, sou forçado a dar por finda a minha colaboração com o Expresso. Foram 38 anos de escrita, essencialmente de crítica e crónica gastronómicas, em que o único propósito consistiu em servir o leitor (e a gastronomia) com verdade e honradez.
Na improbabilidade de um literal até à vista, terá de ser mesmo um penoso e imenso adeus. Obrigado pela atenção dispensada.
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